
Quando abri os olhos hoje pela manhã, a primeira coisa que vi foram meus seios. Mas não eram os meus. Esses eram firmes e ficavam na mesma posição estando eu sentada, deitada, pulando ou amarrando o tênis. Outra coisa diferente: minhas pernas. Comecei a tocá-las em direção aos pés e eles pareciam nunca chegar. Era mais de metro de pernas. Também estavam mais finas, torneadas e bronzeadas.
E o abdômen? Era côncavo, trincado e “cortado” ao meio por uma cintura na qual quase podia fechar minhas duas mãos. Corri para o espelho e quase caí para trás quando vi o reflexo. Estava magnífica. Não podia reclamar, só estranhar, sem, no entanto, achar que aquela imagem me era inédita. Eu conhecia bem aquele corpo. Corri os olhos para a prateleira de revistas e lá estava, estampado na capa da Vogue do último mês: eu tinha o corpo de Gisele Bundchen.
Não havia razão em tudo aquilo, mas quando coloquei o vestido que comprei como meta para perder 15 quilos, a razão era descartável.
Cheguei ao trabalho e foi uma comoção. Todos me olhavam com olhos de espanto. As mulheres com muita inveja. Os homens, com cobiça. Mas todos, absolutamente todos, sorriam para mim. Em contrapartida, eu desfilava de um lado para o outro, com cara blasé. Quando enfim me perguntavam o que tinha acontecido, dizia que simplesmente que acordei assim, com o corpo de Gisele. Eles achavam loucura, mas a prova irrefutável estava bem ali, diante deles.
Depois do expediente fiz questão de me pesar – havia dez anos que não encarava a balança. Acreditem, estava com 54 quilos distribuídos em 1,79 de altura. Que sonho! Precisava ir às compras, e dessa vez falaria em alto e bom som: “pode trazer o 38, por favor!”.
Tive que me controlar nos gastos, pois tudo que vestia ficava bom. Saias curtas não ficavam vulgar. Roupas largas me deixavam ainda mais magra, e não parecida com um balão. Já as justas... bem, não preciso nem dizer. Quem nunca viu Gisele destacar suas curvas. Não tem pra ninguém.
No passeio, recebi cartões de apresentação de três agentes de modelos. Homens lindos que me paqueraram sem eu precisar imaginar que isso estivesse acontecendo.
O próximo passo seria comer o que eu quisesse. Tinha bônus para abusar um pouquinho. Um quilo ou dois não fariam diferença. Pedi entrada, prato principal e sobremesa, além de fazer questão de escolher um refrigerante que não tivesse nenhum zero na embalagem. Não consegui passar nem da salada. Também devo ter herdado o apetite da gaúcha.
No estacionamento, quem disse que precisei pagar gorjeta, ou mesmo, a pintura da porta do cara ao lado, que tirei sem querer ao abrir a minha. Era só eu dar um sorriso e pedir desculpas para qualquer um dizer: não foi nada querida.
Dormi. Quando acordei, lá estava eu novamente. Uma simples mortal. Confesso que foi muito mais difícil me acostumar com o meu corpo novamente a encarar um totalmente estranho, porém lindo e perfeito, corpo de top model.
No trabalho todos me olharam aliviados, principalmente as mulheres, que não iam aguentar, nem dar conta da concorrência. Na verdade, acho que ninguém queria conviver com tal fato inexplicável. No fundo, nem eu. Valeu pelo dia de musa. Vou pensar e me inspirar nele toda segunda-feira, quando começar a dieta.
