segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Infeliz coincidência


Quando algum homem virar para você e falar que não entende as mulheres, desconfiem. Até outro dia eu achei que podia dominá-los com meu charme e esperteza, manipulá-los com joguinhos, e assim, estar sempre por cima da situação. Mal sabia eu que também eles possuem suas cartas na manga. E quando é para pegar pesado, desistam! Não tem competição. Dói meu coração em aceitar, mas eles ganham.

Tirei a prova disso ontem, no aniversário de uma semana com o Bruno.

Aniversário é modo de dizer. Só estamos ficando, e é claro que ele não parou para contar os dias, e, tão pouco, raciocinar que o convite para sair poderia significar alguma comemoração. Mas gosto de pensar naquele encontro como uma efeméride. Com certeza, fugiu aos padrões dos anteriores. Ele estava muito esquisito.

Por exemplo, quando pedi ao garçom para trazer um suco de laranja, ele esbravejou meio cinicamente: “Mas como! Você adora uma cervejinha. Por que não pede?”

Peraí! Como ele sabe que eu adoro beber cerveja? Nunca comentei e nem bebi na frente dele.
Mas o pior veio depois, quando nos beijamos. Ele interrompeu o beijo dizendo: “Oh, desculpe-me. Sei que você odeia que eu te beije tão rápido. Vou mais devagar.”
Dei uma risadinha sem graça, e rapidamente cogitei a hipótese de ele estar lendo meus pensamentos, tipo Mel Gibson em “Em sei o que as mulheres gostam”.

E não parou por aí. Quando finalmente chegou a pizza, ele pediu para o garçom trazer um copo de água e uma salada, e soltou logo em seguida, como que se respondendo a minha cara de espanto: “Estou de regime. Não é você que acha que estou meio fofinho?”

- “Euuuuu? Mas eu nunca disse isso.”

- “Não para mim.”

Como não queria deixar a situação ainda mais estranha, preferi não comentar nada sobre o caso, principalmente porque eu achava realmente que ele estava meio acima do peso. Inclusive, já tinha comentado sobre suas “curvas” acentuadas com todas as minhas amigas. O intrigante é que não fazia a menor idéia de como ele sabia disso.

Depois do jantar, mais uma surpresa (e que não grata surpresa!). Ele disse que eu poderia pagar a conta sozinha, porque sabia que eu odiava homens machões, que gostam de se aparecer mostrando que podem tudo com suas manias de pagar a conta, escolher o restaurante, abrir a porta do carro, carregar a bolsa, entre outras gentilezas.

Tá, eu admito. Não curto mesmo esse tipo de demonstração de poder. Mas também não gostei da idéia de pagar a conta sozinha, ainda mais depois de ter escolhido o restaurante mais caro, por estar acostumada com o fato de o Bruno sempre arcar com as despesas do encontro.

No mínimo, podíamos ter dividido o valor. Bem que achei estranho ele ter pedido que eu sugerisse o restaurante, ainda mais suspeito quando soltou uma risadinha irônica depois de eu falar o nome do novo bistrô do centro da cidade.

Não agüentei mais o clima de suspense no ar. Fui logo desabafando que algo estava bem estranho naquele encontro, e ele soltou: “Ah, você não entendeu nada? Pois antes de sair contando nossas intimidades e suas opiniões por ai, certifique-se que não está tomando sol ao lado da sogra.”

Pois é, era a mãe dele que estava na cadeira ao lado da minha na piscina do clube. Como não cogitei a possibilidade? Apesar de não conhecê-la pessoalmente, sabia que ela vivia por lá. Não foi difícil ligar os nomes e as coincidências da minha conversa e descobrir que era eu a nova “ficante” de seu filhinho querido.

Não tinha como negar. Era o fim. Começou a passar um filme na minha cabeça de tudo que tinha falado naquela tarde ensolarada com a Carla e a Adriana. E os comentários sobre os meninos da piscina? Ah, qual é. Olhar não tira pedaço! Mesmo que o alvo seja um charmoso pai brincando com a filhinha (não pude evitar, ele era muito charmoso). Essa, justamente, ela fez questão de contar de forma horrorizada para o Bruno.
Depois as sogras reclamam da fama que têm. Ela nem comentou as partes boas da conversa, como quando disse que estava curtindo muito sair com ele.

Fosse uma tentativa de “melar” nossa relação, a megera se deu mal. Depois de uma semana de um clima estranho, tudo voltou como era antes. A não ser pelo fato de agora eu falar o que penso na cara dele e de ele ter nos matriculado na academia (sem poupar sinceridade, ele disse que eu precisava “queimar” a minha barriga de cerveja).

Até hoje não tive coragem de encarar a sogra.

Outro dia a vi na piscina, mas é claro que fingi não conhecer. Fui sentar bem longe e atrás de um coqueiro, só para garantir.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

A santa dos “pegadores”


Foi de repente que fui parada na rua por um cara ruborizado e com a voz tremula: “Você é Amélia?”
Caramba! Nunca senti meu nome tão forte e radiante. Era quase uma oração.
“Sim, sou eu mesma.”
Ele então demorou um pouco para assimilar, mas logo pegou minha mão e beijou agradecido. “Obrigado pela noite de ontem.”
Antes que alguém pense que cometi uma loucura depravada com um cara que deve ter metade da minha idade (ele era bem jovem, vejam bem), me deixem adiantar a conversa que travei com o abusado por quase meia hora.
Tentarei ser o mais breve e compreensível possível, para que vocês compartilhem o quanto antes o meu drama.
Virei uma santa, com direito a altar, estátuas e até oração própria. O problema é que nunca escutei prece alguma ou fui altruísta o suficiente para merecer tal cargo religioso. Pelo o contrário. Sempre fui um ser egoísta, egocêntrico e exibido. Mas talvez more aí a causa da minha santidade.
Ignorei por anos diversos garotos no colégio. Para o meu azar, um deles, ao invés de me odiar por ridicularizá-lo em público, passou a me idolatrar. Tirava fotos minhas sem que eu soubesse. Em uma delas, eu, bronzeada, me encaixava perfeitamente dentro de um minúsculo biquíni (tempos bons àqueles). Todas as garotas usavam um durante àquela excursão escolar ao parque aquático. Foi essa imagem a culpada de todo o meu drama. O tal do Júnior me imortalizou naquela tarde ensolarada, e me pendurou na parede de um quarto desocupado em sua casa - segundo o fulano que me parou na rua.
O altar estava montado. Logo chegariam os fiéis.
O que era para ser apenas um encontro de garotos com o rosto cheio de espinhas, acabou se tornando um culto ao inalcançável. Eles também queriam uma mulher como aquela. E passaram a pedir isso com fervor.
Não sei se a história é verídica, mas um deles, o mais feio, segundo o fulano, certo dia chegou dizendo que havia conseguido atrair a atenção de uma mulher na rua (o que, de cara, já era de se admirar). Segundo “a lenda”, do nada, um mulherão de tirar o fôlego o parou para pedir informação. Não satisfeita com a explicação “gaguejada” de como chegar ao motel mais perto, ela teria o pegado pela mão e insistido para que ele a acompanhasse.
Na hora, imaginei uma prostituta atraindo um idiota qualquer para uma cilada. Mas o tal fulano me garantiu que hoje os dois estavam casados e com dois filhos.
Após o ocorrido, a notícia se espalhou, e em poucas semanas, os fiéis se enfileiravam em frente ao altar improvisado pelo Júnior.
A mãe dele teria achado estranha a movimentação, e proibido o filho de receber os marmanjos do bairro em sua casa. A situação pedia providências imediatas. Foi quando o segundo fiel atendido pela santa sugeriu que cada um pagasse dízimo para alugar um santuário. Ninguém se opôs.
Além do dízimo, cada fiel teria de entregar uma camisinha a cada graça alcançada. Segundo o fulano, o estoque já passava dos dez mil preservativos, que representavam noites bem sucedidas, ou mesmo, a mentira de alguém sem coragem de admitir que nem uma santa é capaz de tirá-lo do mundo dos fracassados sexualmente.
O pote de oferendas se enchia ainda mais no Carnaval, época de maior “pegação”. Os fiéis chegavam a fazer procissão com a foto da santa.
Percebam que só consigo me referir à Santa Amélia na terceira pessoa do singular. Nem de longe minha vida naquele momento se assemelhava a de alguém capaz de ajudar milhares de homens a se dar bem por ai. Fazia cinco meses que estava encalhada. O único homem que tinha se aproximado de mim nos últimos tempos era o meu orientador na tese de doutorado - fato que parece ainda mais perturbador se considerarmos que ele ganhava para fazer isso e tinha 70 anos de idade.
Não podia negar que me sentia lisonjeada por ser uma musa. Precisava conferir tudo com meus próprios olhos.
Perguntei para o fulano onde ficava o santuário. Ele me passou o endereço e até pediu para que eu o avisasse sobre o dia e a hora de minha visita, para preparar os fieis para a aparição. Preferir ir anônima. Coloquei casaco, peruca, óculos escuros - tudo para não ser reconhecida.
Foi incrível. Ao entrar no santuário, senti uma força e um calor inexplicável. Velas queimavam. Fotos de mulheres peitudas “pintavam” a parede. Eram as graças alcançadas. E lá estava ele: o pote repleto de camisinhas, de todas as cores, marcas e tamanhos.
Tudo funcionava independente da minha real existência ou presença naquele recinto.
Sentei e fiquei apreciando as minhas curvas da adolescência. Nem me lembrava mais de como eram, e não foi difícil saber o porquê de tantos homens depositarem tamanha fé na Santa Amélia. Poderia até ganhar algum dinheiro com um processo de uso indevido e não autorizado da minha imagem, não fosse o fato de que o juiz não acreditaria que era eu na foto.
Percebi um olhar curioso ao meu lado. No mínimo, alguém achando estranho ver uma mulher por ali. Foi quando uma voz sussurrou: “Enfim você atendeu minhas preces e apareceu para mim.”
Reconheci aquele rosto assim que olhei. Era o Júnior, só que numa versão sem espinhas, musculosa, com lentes de contatos, e bem mais autoconfiante. Era a vingança dos nerds acontecendo bem diante dos meus olhos. Ele deixava muitos atletas do tempo da escola (que hoje estavam barrigudos e desempregados) no “chinelo”.
Confesso que não fui nem um pouco difícil. Pelo contrário. Resolvi ser pela primeira vez uma santa preocupada com os anseios de seus fiéis, e atendi aos pedidos do Júnior ali mesmo. Nunca imaginei que pudesse ser tão gratificante. Será que foi porque atendi justo o criador do santuário? Seja como for, repeti a dose várias vezes, até que decidimos morar juntos.
O Júnior então anunciou que iria passar a liderança do santuário para o fulano, que depois descobri chamar André, mas não antes de o fulano prometer que a nossa história ficaria em segredo. Afinal, a áurea que envolvia Santa Amélia deveria continuar intocada. Quem sabe se um dia tivermos um filho, e ele puxe ao pai na adolescência? Ele vai precisar de uma foto da santinha (que eu já guardei, só por garantia) para ter sorte com as mulheres.
Só espero que não note nenhuma semelhança.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

O Podólatra




Todo mundo diz ter um pé feio. Na maioria das vezes a afirmação é um exagero, ou até mesmo mentira. No meu caso, a forma mais pura de modéstia. Ele é muito, mas muito feio, quase uma aberração. Só para se ter uma idéia, um dia estava no ponto de ônibus de sandália e peguei um cara olhando de vários ângulos para os meus pés. De todos, ele acabou fazendo uma careta.
Isso até pouco tempo me incomodava. Hoje, não mais. Quer dizer, até outro dia não. Sabe aquele cara que só olha para gente uma vez na vida? Moreno, olhos verdes, tipo Paulo Zulu. Pois bem, nos encontramos num bar, e depois de um bom papo, alguns beijinhos e carícias, decidimos ir para o apartamento dele.
Estava tudo indo muito bem, até ele sussurrar no meu ouvido: “estou louquinho para ver seus pés. Pés me excitam.” Ai meu Deus! Nada poderia ter sido mais broxante para mim. Mudei o tom da voz, comecei a suar frio e a ter dor de cabeça. Mas ele continuou no clima, foi quando soltei a famosa frase “balde de água fria”: “preciso ir ao banheiro.”
Por que justo os pés? Não podia gostar de pernas, peitos, barriga, bumbum, ou, sei lá, cabelos? Mesmo com meus quase trinta e três, até que estava com tudo bem em cima, a não ser por aquelas duas coisinhas cheias de dedos localizadas bem abaixo do meu corpo.
E agora, o que eu faria? Já sei! Mandar ele apagar as luzes? Não, não, não... quando acariciasse meu pé direito, não teria como não sentir o joanete. Falar que estava com frieira, e que o tratamento exige uso integral de meias? Podia até funcionar, se não fosse tão nojento. Pular da janela do décimo andar? Dar no pé e não dar por causa de um pé? (desculpem, não pude evitar o péssimo trocadilho).
Nada disso! Não podia perder tal oportunidade. Mas por via das dúvidas, se algo desse errado, garanti uma imagem dele tirada do meu celular da janela do banheiro. Vai que as amigas não acreditassem depois. Felizmente, a foto não precisou acompanhar uma história mentirosa. A noite foi maravilhosa, graças à genial solução de improvisar um strip- tease, e na hora de tirar os sapatos, dizer que eles faziam parte da fantasia. Acabou colando, pelo menos, temporariamente.
De manhã, acordei sem os sapatos. Sem ele também. Deixou somente um bilhete dizendo que tinha ido trabalhar, e que eu poderia ficar à vontade. Será que era verdade, ou teria fugido horrorizado quando descobriu que a “fantasia” da noite passada não passava de filme de terror?
Quem saberá, ele nunca mais me ligou.

terça-feira, 29 de julho de 2008

De pernas bem fechadas


Chegou o dia mais indesejável do ano: o de abrir as pernas, introduzir aquele instrumento gelado e grosso no lugar mais escuro do meu corpo. Que mulher pode querer passar por isso? No meu caso, a experiência estava marcada para as três da tarde, e o que é pior, com um desconhecido.
Mudei de convênio médico há poucos meses, e era a primeira vez que passaria com um tal ginecologista chamado Drº Mário. Uma amiga me disse que ele era um amor, super atencioso. E eu lá queria isso de um ginecologista. Na verdade, eu nem queria olhar para a cara de um. Gostaria que as consultas fossem via telefone, correio, internet, sei lá, telepatia. Imaginem que engraçado: “tecle 1 para corrimento de cor desconhecida. Dois para coceira de origem desconhecida. Três para exames de rotina. Quatro para assuntos mais íntimos, ou, aguarde para ser atendida.”
Depois de chegar ao consultório com uma hora de antecedência para conhecer o território e me preparar psicologicamente, estava lendo a sétima revista. A da vez tratava-se de cremes e pomadas para a parte íntima da mulher, aquelas edições que os médicos recebem e jogam na mesinha para os pacientes lerem e não entender “bulhufas”.
Vocês sabiam que existe até pomada para evitar o crescimento em excesso dos pêlos pubianos?
Melhor não acreditarem, pois na verdade não passa de fruto da imaginação de uma mulher desesperada, que foi se depilar pela manhã e ficou toda empipocada depois de arrancar tufos e tufos de um detestável presente genético. Acho que o médico que acaba de abrir a porta entenderá a minha alergia à cera quente.
Abaixei lentamente a revista para ver a cara do meu “carrasco” e fiz uma descoberta que me estarreceu mais do que qualquer existência de pomada para redução de pêlos pubianos (caso elas existissem, é claro). O Drº Mário era na verdade o Marinho, colega meu das quadras de tênis.
Ai meu Deus, e agora? Enquanto bebia água, pensava no que poderia ser pior do que aquela situação desagradável. O Mário, que da minha intimidade, até então, só conhecia o revelado pela minha saia pregueada, iria me ver agora quase como vim ao mundo, se não fosse pelo detalhe de que atualmente tenho peitos grandes e estrias no bumbum. Foi então que o mais óbvio me veio à cabeça: vou embora já.
Quando me virei pronta para jogar aquela consulta para os ares, dei de cara com o Marinho.
- Sabia que conhecia este nome quando li no prontuário.
- Marinho? Nossa, não sabia que o médico era você. Que coincidência, não? Como você está?
- Bem, e você? Aguarde só mais uns minutinhos que eu já te chamo.
Nunca mais apareceria no clube. E a Glória, mulher dele, o que ia pensar de mim? E quando fôssemos trocar bola? Só lembraria que ele já me viu sem calcinha e conhecia os segredos mais obscuros de ... vocês sabem onde.
“Andrea!”
Ai, sou eu. Resolvi abrir o jogo e manter minhas pernas bem fechadas naquela tarde. Expliquei que não me sentia bem com a situação e ele entendeu. Até me deu um cartão de uma colega dele.
Hummm, deixa eu ver... Alex Brandão? Não sei não, mas esse não é o nome do novo namorado da Valéria?

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Bobagens e um pouco de aspirina


Hoje acordei meio indisposta. Ontem foi uma noite daquelas. Muitos amigos ao redor, bebidas, música alta, conversas jogadas fora, e o melhor, pude finalmente mostrar que perdi aqueles quase cinco quilos depois de almoços e almoços de alface e água. E como não iam reparar. Fui sentar logo ao lado da Sandra, aquela gostosona bronzeada cujas coxas mais parecem com uma peça de mortadela. Chegaram a perguntar se eu estava doente. Pois amanhã mesmo me matriculo na musculação. E não posso deixar de marcar na minha agenda: voltar a comprar carboidratos, a começar pelo chocolate.
E a Bruna que fez a tal da progressiva. O cabelo dela era mais enrolado que o meu, e ontem sequer frisou com a garoa que pegamos na fila do bar. O meu, por outro lado, não teve elástico de cabelo que segurasse.
Falei para o Fábio que assim não dava mais, teria que me render aos encantos da química capilar. E ele, como sempre, me apoiou. Chegou a dizer que me levaria ao salão no dia seguinte. Peraí, logo ele que dizia amar meus cachinhos? Agora, sem hesitar, entra numa de apoio incondicional à namorada insatisfeita com o cabelo. No mínimo, deve ter se encantado com o novo visual da Bruna. Os homens são todos uns falsos e dissimulados.
Mas o “melhor” da noite foi quando o pessoal deu inicio a tradicional sessão de recordar as minhas gafes do colégio. Pronto, lá estava eu novamente virando piada pronta. Sempre achei que se eu ficasse sem rir de tudo aquilo, eles se tocariam e parariam com as piadas. Mas não. Passei então a rir junto com eles, acreditando que com a nova atitude as gozações perderiam um pouco a graça. Enganei-me novamente.
Descobri que a única saída era beber, mas beber muito nessa hora. Principalmente quando o assunto chegava à pitoresca história de quando sai do banheiro no dia da feira de ciências com a parte de baixo do vestido enfiado dentro da calcinha. Amo a vodka nessa hora. Seria perfeita, se não me desse tanta dor de cabeça no dia seguinte.
Ah, mas tinha um trunfo na manga. Poderia enfim me gabar pela promoção que tive no trabalho. Ergui meu copo de chopp e chamei o assunto em alto e bom som: “vamos falar de trabalho pessoal.” Fui interrompida pela metida da Sônia, que aproveitou a deixa para falar do seu mais novo cargo de diretora executiva de uma multinacional no Canadá. Aproveitei então para falar o que já deveria ter dito há muito tempo: “Gente, preciso ir ao banheiro.”
Da próxima vez, preciso inventar uma boa desculpa para não ir a esses encontros anuais.
“Alô? Oi Kátia. O encontro de ontem? Foi ótimo... o quê? Como faço para ser a única com um namorado nos dias de hoje? Ora, acho que sou uma mulher de sorte...
Ai, adoro rever os velhos amigos!

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Encontros e desencontros


Com seus cerca de 40 mil quilômetros de extensão, há quem diga que o nosso planeta é um lugar pequeno. E não poderia ser do contrário, se onde quer que a gente vá acaba tropeçando em um conhecido. Eles estão aos montes por aí, mesmo que você não seja alguém muito popular.
Outro dia mesmo a minha irmã estava no trânsito virando um saquinho de batatas fritas na boca - sabe quando ficam aqueles farelinhos deliciosos no final do pacote? – quando no auge da queda das migalhas por toda cara e cabelo, ela olha para o lado e se depara com o cara mais lindo do prédio onde trabalha (aquele para quem ela se arruma todos os dias e torce para encontrar no elevador) olhando para aquela cena lamentável, que justifica com total literalidade porque a gula é um pecado capital.
Isso somente comprova outra teoria dos acasos do dia-a-dia: os conhecidos não só nos perseguem e tem como lugar preferido aquele para o qual recorremos quando queremos ficar sozinhos, como também nos encontram nas horas mais inoportunas.
Comigo não é diferente. Encontro com pessoas conhecidas o tempo todo. A exceção no meu caso é que não me lembro de conhecê-las. Acho que sofro de uma espécie de mal de Alzheimer precoce. Não que algum médico tenha confirmado tal diagnóstico, mas é que a semelhança é tamanha que até me fez criar um tipo de “automedicação”. Um manual para driblar as freqüente gafes do esquecimento. Até outro dia, ele funcionava muito bem...
Enfim estava de férias da faculdade, depois de cursar o primeiro semestre de Administração. Tudo o que eu queria era praia, correr no calçadão e tomar água de coco, e com certeza, não encontrar ninguém acenando para mim como se me conhecesse. Pois lá estava ela. Uma garota - que não me era estranha, mas também não fazia idéia de onde tinha saído - sorria e chamava meu nome aos berros do outro lado da rua.
Seguindo a regra número 1 do meu manual, sorri para ela e fingi conhecê-la e estar com muitas saudades (afinal, se não me lembrava dela é porque fazia muito tempo que não a via). O segundo passo foi fazer elogios sobre o cabelo, forma física, roupa, ou qualquer outra coisa que não me fizesse entrar em assuntos mais pessoais (nessa etapa, tive de ser um pouco falsa, mas faz parte da metodologia). Depois comecei a falar de mim, da minha família e namorado. Sendo esse um campo conhecido por mim, não tinha como errar na conversa, e se ela realmente me conhecia, no mínimo, deveria querer saber como andava a minha vida.
E para fechar aquele bate-papo forçado, usei a pergunta chave do meu manual de instruções: Mas e ai, o que você tem feito da vida? Era perfeita. Eu estava sendo educada por me interessar por alguém que provavelmente há tempos não via, e depois poderia encerrar a conversa e continuar com minhas férias em paz (pelo menos até encontrar outra cara conhecida).
Entretanto, o que aconteceu foi que comecei a entender melhor porque as indústrias farmacêuticas fazem testes antes de colocar em circulação seus medicamentos. Meu manual continha falhas, e falhas fatais.
Quando perguntei aquilo, obtive a infeliz resposta:
-“Como assim o que ando fazendo? Eu estudo na sua sala da faculdade e nos vimos ainda esta semana.”
Em vez de eu começar a chorar e inventar qualquer história semelhante a: “desculpa, mas sabe aquele filme ‘Como se fosse a primeira vez’? Então, foi inspirado na minha vida”, ou, “tenho uma falta de um tipo de vitamina que me faz esquecer a fisionomia de pessoas com cabelos castanhos”, acabei não dizendo nada, virando as costas e saindo como se coisa alguma tivesse acontecido.
Não sei se ela nunca mais falou comigo pelo o esquecimento ou pelo descaso de não ter dado sequer uma explicação. A parte boa dessa história é que, pelo menos, o rosto de uma pessoa minha memória nunca mais se esquecerá.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Um amor fora dos padrões


Em qual lugar da face da Terra se usa calça social com regata de algodão? Segundo minhas coerentes suspeitas, em nenhum outro além daquele elevador. Era dia 7 de setembro, Independência do bom senso para se vestir. Ignorando a minha cara de desprezo, perguntou: “Será que era isso que meu professor quis dizer quando falou para irmos bem vestidos à aula de hoje? Tá um calor. Não pude colocar mangas. O que você acha?”
- Está ótimo (pelo sorriso, ele não sabe o que é a ironia em ação).
Começamos assim. Para mim, terminaria assim também. Mas ele foi além. No dia seguinte bateu na minha porta me chamando para sair. Era um prédio somente de repúblicas universitárias, e a dele ficava ao lado da minha. Olhei de cima a baixo. Hum... deixa eu ver: pernas tortas, chinelos Ridder, baixinho, camiseta do trote universitário daquele ano (é “bixo”) – e detalhe – por dentro da bermuda de sarja cintura alta. O que mais eu poderia querer? Sem responder à pergunta, que poderia ser cômica, não fosse meu mau humor naquela noite, bati a porta na cara dele.
Uma coisa não podia negar, ele era corajoso. Vir até minha casa, uma veterana do curso de medicina, um dia antes do inicio dos exames finais, era muita petulância. E não é para me gabar, mas dispensei muitos outros, infinitamente mais interessantes, por motivos bem mais banais.
Era óbvio que ele não se preocupava em levar um fora. Ficou muito mais quando a situação se repetiu dois dias depois. Desta vez, ele foi mais delicado e se mostrou preocupado quanto ao meu desempenho nas provas. Tive de baixar a guarda. Ele estendeu seu boletim e me fez rir (pra variar). Eram as piores notas que eu já tinha visto. Ele então me disse que só poderia superar a bronca que levou do pai (sim, ele ainda levava bronca do pai, já que tinha apenas 19 anos) se eu aceitasse sair com ele.
Como estava sem nenhuma desculpa para dar, e não podia negar que a abordagem tinha sido original e comovente, resolvi aceitar. Além do mais, há tempos não saia para me divertir, e com certeza, se tinha uma coisa que aquele cara sabia fazer, era eu morrer de rir.
Mesmo sendo uma lástima para se vestir, o caipira pentelho desarmava meu jeito reservado de ser, me tirava do pedestal no qual os homens sempre me colocaram, e até me transformava em piada quando eu tropeçava com o salto ou mostrava total desentendimento sobre música sertaneja – a trilha sonora da vida dele.
As saídas se tornaram cada vez mais constantes. Com ele passei a notar que minha arrogância nada mais era que o medo de me mostrar, deixar transparecer minhas fraquezas. Deixei de ser tão exigente comigo mesma. Até me peguei indo ao shopping de moletom e tirando nota 7 nos exames da faculdade. Podia chorar, acordar com bafo e descabelada, porque sabia que se estivesse linda e deslumbrante ele me veria com os mesmos olhos: os de alguém apaixonado.
Mas confesso, também tive minhas recaídas, principalmente quando resolvi levar ele para conhecer meus amigos. Deixei-o bem à vontade (não que ele não se sentisse assim de qualquer maneira). Logo se enturmou com todo mundo e eu fui para o quarto da Andréia, a anfitriã da festa, colocar a fofoca em dia. Quando voltei, a cena não podia ser pior e mais desastrosa. Ele, sem botinas e meias, com o pé em cima da mesa, mostrando um caso antigo de frieira para os meus futuros amigos médicos.
Fiquei dois dias sem falar com ele. O primeiro foi fácil; o segundo insuportável; no terceiro, dei de ombros para os comentários da família - do tipo: “querida, cada sapato tem seu par, e esse, definitivamente, não é o seu” - para as risadas das amigas, para a ascendência dos signos, para os casais de comercial de margarina, para os contos de fada e atores de Hollywood. Decidi assumir para mim e para o mundo que meu vizinho era o amor da minha vida.
O nome do amor?
Gervaziano.

Dar risada é o que importa

Não sei se me contaram, presenciei, inventei, incrementei...
Seja lá como for, dei boas risadas ao escrever essas situações, e espero que vocês, ao lerem, também se divirtam. Embora a maioria esteja na primeira pessoa do singular, JURO, não aconteceram comigo.
Só achei que daria maior proximidade e veracidade aos fatos.
Não faço o tipo feminista, ou algo assim, mas todos os contos e crônicas retratam alguma "presepada" enfrentada por uma mulher. Acho que é porque também sou uma, e além de me expressar solidária, fica mais fácil escrever compartilhando de um mesmo olhar.
Bom... chega de firulas, que muitas estão por vir...
Também aceito críticas e conselhos para novas histórias.

Abraços
Daniela Dahrouge