segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Infeliz coincidência


Quando algum homem virar para você e falar que não entende as mulheres, desconfiem. Até outro dia eu achei que podia dominá-los com meu charme e esperteza, manipulá-los com joguinhos, e assim, estar sempre por cima da situação. Mal sabia eu que também eles possuem suas cartas na manga. E quando é para pegar pesado, desistam! Não tem competição. Dói meu coração em aceitar, mas eles ganham.

Tirei a prova disso ontem, no aniversário de uma semana com o Bruno.

Aniversário é modo de dizer. Só estamos ficando, e é claro que ele não parou para contar os dias, e, tão pouco, raciocinar que o convite para sair poderia significar alguma comemoração. Mas gosto de pensar naquele encontro como uma efeméride. Com certeza, fugiu aos padrões dos anteriores. Ele estava muito esquisito.

Por exemplo, quando pedi ao garçom para trazer um suco de laranja, ele esbravejou meio cinicamente: “Mas como! Você adora uma cervejinha. Por que não pede?”

Peraí! Como ele sabe que eu adoro beber cerveja? Nunca comentei e nem bebi na frente dele.
Mas o pior veio depois, quando nos beijamos. Ele interrompeu o beijo dizendo: “Oh, desculpe-me. Sei que você odeia que eu te beije tão rápido. Vou mais devagar.”
Dei uma risadinha sem graça, e rapidamente cogitei a hipótese de ele estar lendo meus pensamentos, tipo Mel Gibson em “Em sei o que as mulheres gostam”.

E não parou por aí. Quando finalmente chegou a pizza, ele pediu para o garçom trazer um copo de água e uma salada, e soltou logo em seguida, como que se respondendo a minha cara de espanto: “Estou de regime. Não é você que acha que estou meio fofinho?”

- “Euuuuu? Mas eu nunca disse isso.”

- “Não para mim.”

Como não queria deixar a situação ainda mais estranha, preferi não comentar nada sobre o caso, principalmente porque eu achava realmente que ele estava meio acima do peso. Inclusive, já tinha comentado sobre suas “curvas” acentuadas com todas as minhas amigas. O intrigante é que não fazia a menor idéia de como ele sabia disso.

Depois do jantar, mais uma surpresa (e que não grata surpresa!). Ele disse que eu poderia pagar a conta sozinha, porque sabia que eu odiava homens machões, que gostam de se aparecer mostrando que podem tudo com suas manias de pagar a conta, escolher o restaurante, abrir a porta do carro, carregar a bolsa, entre outras gentilezas.

Tá, eu admito. Não curto mesmo esse tipo de demonstração de poder. Mas também não gostei da idéia de pagar a conta sozinha, ainda mais depois de ter escolhido o restaurante mais caro, por estar acostumada com o fato de o Bruno sempre arcar com as despesas do encontro.

No mínimo, podíamos ter dividido o valor. Bem que achei estranho ele ter pedido que eu sugerisse o restaurante, ainda mais suspeito quando soltou uma risadinha irônica depois de eu falar o nome do novo bistrô do centro da cidade.

Não agüentei mais o clima de suspense no ar. Fui logo desabafando que algo estava bem estranho naquele encontro, e ele soltou: “Ah, você não entendeu nada? Pois antes de sair contando nossas intimidades e suas opiniões por ai, certifique-se que não está tomando sol ao lado da sogra.”

Pois é, era a mãe dele que estava na cadeira ao lado da minha na piscina do clube. Como não cogitei a possibilidade? Apesar de não conhecê-la pessoalmente, sabia que ela vivia por lá. Não foi difícil ligar os nomes e as coincidências da minha conversa e descobrir que era eu a nova “ficante” de seu filhinho querido.

Não tinha como negar. Era o fim. Começou a passar um filme na minha cabeça de tudo que tinha falado naquela tarde ensolarada com a Carla e a Adriana. E os comentários sobre os meninos da piscina? Ah, qual é. Olhar não tira pedaço! Mesmo que o alvo seja um charmoso pai brincando com a filhinha (não pude evitar, ele era muito charmoso). Essa, justamente, ela fez questão de contar de forma horrorizada para o Bruno.
Depois as sogras reclamam da fama que têm. Ela nem comentou as partes boas da conversa, como quando disse que estava curtindo muito sair com ele.

Fosse uma tentativa de “melar” nossa relação, a megera se deu mal. Depois de uma semana de um clima estranho, tudo voltou como era antes. A não ser pelo fato de agora eu falar o que penso na cara dele e de ele ter nos matriculado na academia (sem poupar sinceridade, ele disse que eu precisava “queimar” a minha barriga de cerveja).

Até hoje não tive coragem de encarar a sogra.

Outro dia a vi na piscina, mas é claro que fingi não conhecer. Fui sentar bem longe e atrás de um coqueiro, só para garantir.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

A santa dos “pegadores”


Foi de repente que fui parada na rua por um cara ruborizado e com a voz tremula: “Você é Amélia?”
Caramba! Nunca senti meu nome tão forte e radiante. Era quase uma oração.
“Sim, sou eu mesma.”
Ele então demorou um pouco para assimilar, mas logo pegou minha mão e beijou agradecido. “Obrigado pela noite de ontem.”
Antes que alguém pense que cometi uma loucura depravada com um cara que deve ter metade da minha idade (ele era bem jovem, vejam bem), me deixem adiantar a conversa que travei com o abusado por quase meia hora.
Tentarei ser o mais breve e compreensível possível, para que vocês compartilhem o quanto antes o meu drama.
Virei uma santa, com direito a altar, estátuas e até oração própria. O problema é que nunca escutei prece alguma ou fui altruísta o suficiente para merecer tal cargo religioso. Pelo o contrário. Sempre fui um ser egoísta, egocêntrico e exibido. Mas talvez more aí a causa da minha santidade.
Ignorei por anos diversos garotos no colégio. Para o meu azar, um deles, ao invés de me odiar por ridicularizá-lo em público, passou a me idolatrar. Tirava fotos minhas sem que eu soubesse. Em uma delas, eu, bronzeada, me encaixava perfeitamente dentro de um minúsculo biquíni (tempos bons àqueles). Todas as garotas usavam um durante àquela excursão escolar ao parque aquático. Foi essa imagem a culpada de todo o meu drama. O tal do Júnior me imortalizou naquela tarde ensolarada, e me pendurou na parede de um quarto desocupado em sua casa - segundo o fulano que me parou na rua.
O altar estava montado. Logo chegariam os fiéis.
O que era para ser apenas um encontro de garotos com o rosto cheio de espinhas, acabou se tornando um culto ao inalcançável. Eles também queriam uma mulher como aquela. E passaram a pedir isso com fervor.
Não sei se a história é verídica, mas um deles, o mais feio, segundo o fulano, certo dia chegou dizendo que havia conseguido atrair a atenção de uma mulher na rua (o que, de cara, já era de se admirar). Segundo “a lenda”, do nada, um mulherão de tirar o fôlego o parou para pedir informação. Não satisfeita com a explicação “gaguejada” de como chegar ao motel mais perto, ela teria o pegado pela mão e insistido para que ele a acompanhasse.
Na hora, imaginei uma prostituta atraindo um idiota qualquer para uma cilada. Mas o tal fulano me garantiu que hoje os dois estavam casados e com dois filhos.
Após o ocorrido, a notícia se espalhou, e em poucas semanas, os fiéis se enfileiravam em frente ao altar improvisado pelo Júnior.
A mãe dele teria achado estranha a movimentação, e proibido o filho de receber os marmanjos do bairro em sua casa. A situação pedia providências imediatas. Foi quando o segundo fiel atendido pela santa sugeriu que cada um pagasse dízimo para alugar um santuário. Ninguém se opôs.
Além do dízimo, cada fiel teria de entregar uma camisinha a cada graça alcançada. Segundo o fulano, o estoque já passava dos dez mil preservativos, que representavam noites bem sucedidas, ou mesmo, a mentira de alguém sem coragem de admitir que nem uma santa é capaz de tirá-lo do mundo dos fracassados sexualmente.
O pote de oferendas se enchia ainda mais no Carnaval, época de maior “pegação”. Os fiéis chegavam a fazer procissão com a foto da santa.
Percebam que só consigo me referir à Santa Amélia na terceira pessoa do singular. Nem de longe minha vida naquele momento se assemelhava a de alguém capaz de ajudar milhares de homens a se dar bem por ai. Fazia cinco meses que estava encalhada. O único homem que tinha se aproximado de mim nos últimos tempos era o meu orientador na tese de doutorado - fato que parece ainda mais perturbador se considerarmos que ele ganhava para fazer isso e tinha 70 anos de idade.
Não podia negar que me sentia lisonjeada por ser uma musa. Precisava conferir tudo com meus próprios olhos.
Perguntei para o fulano onde ficava o santuário. Ele me passou o endereço e até pediu para que eu o avisasse sobre o dia e a hora de minha visita, para preparar os fieis para a aparição. Preferir ir anônima. Coloquei casaco, peruca, óculos escuros - tudo para não ser reconhecida.
Foi incrível. Ao entrar no santuário, senti uma força e um calor inexplicável. Velas queimavam. Fotos de mulheres peitudas “pintavam” a parede. Eram as graças alcançadas. E lá estava ele: o pote repleto de camisinhas, de todas as cores, marcas e tamanhos.
Tudo funcionava independente da minha real existência ou presença naquele recinto.
Sentei e fiquei apreciando as minhas curvas da adolescência. Nem me lembrava mais de como eram, e não foi difícil saber o porquê de tantos homens depositarem tamanha fé na Santa Amélia. Poderia até ganhar algum dinheiro com um processo de uso indevido e não autorizado da minha imagem, não fosse o fato de que o juiz não acreditaria que era eu na foto.
Percebi um olhar curioso ao meu lado. No mínimo, alguém achando estranho ver uma mulher por ali. Foi quando uma voz sussurrou: “Enfim você atendeu minhas preces e apareceu para mim.”
Reconheci aquele rosto assim que olhei. Era o Júnior, só que numa versão sem espinhas, musculosa, com lentes de contatos, e bem mais autoconfiante. Era a vingança dos nerds acontecendo bem diante dos meus olhos. Ele deixava muitos atletas do tempo da escola (que hoje estavam barrigudos e desempregados) no “chinelo”.
Confesso que não fui nem um pouco difícil. Pelo contrário. Resolvi ser pela primeira vez uma santa preocupada com os anseios de seus fiéis, e atendi aos pedidos do Júnior ali mesmo. Nunca imaginei que pudesse ser tão gratificante. Será que foi porque atendi justo o criador do santuário? Seja como for, repeti a dose várias vezes, até que decidimos morar juntos.
O Júnior então anunciou que iria passar a liderança do santuário para o fulano, que depois descobri chamar André, mas não antes de o fulano prometer que a nossa história ficaria em segredo. Afinal, a áurea que envolvia Santa Amélia deveria continuar intocada. Quem sabe se um dia tivermos um filho, e ele puxe ao pai na adolescência? Ele vai precisar de uma foto da santinha (que eu já guardei, só por garantia) para ter sorte com as mulheres.
Só espero que não note nenhuma semelhança.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

O Podólatra




Todo mundo diz ter um pé feio. Na maioria das vezes a afirmação é um exagero, ou até mesmo mentira. No meu caso, a forma mais pura de modéstia. Ele é muito, mas muito feio, quase uma aberração. Só para se ter uma idéia, um dia estava no ponto de ônibus de sandália e peguei um cara olhando de vários ângulos para os meus pés. De todos, ele acabou fazendo uma careta.
Isso até pouco tempo me incomodava. Hoje, não mais. Quer dizer, até outro dia não. Sabe aquele cara que só olha para gente uma vez na vida? Moreno, olhos verdes, tipo Paulo Zulu. Pois bem, nos encontramos num bar, e depois de um bom papo, alguns beijinhos e carícias, decidimos ir para o apartamento dele.
Estava tudo indo muito bem, até ele sussurrar no meu ouvido: “estou louquinho para ver seus pés. Pés me excitam.” Ai meu Deus! Nada poderia ter sido mais broxante para mim. Mudei o tom da voz, comecei a suar frio e a ter dor de cabeça. Mas ele continuou no clima, foi quando soltei a famosa frase “balde de água fria”: “preciso ir ao banheiro.”
Por que justo os pés? Não podia gostar de pernas, peitos, barriga, bumbum, ou, sei lá, cabelos? Mesmo com meus quase trinta e três, até que estava com tudo bem em cima, a não ser por aquelas duas coisinhas cheias de dedos localizadas bem abaixo do meu corpo.
E agora, o que eu faria? Já sei! Mandar ele apagar as luzes? Não, não, não... quando acariciasse meu pé direito, não teria como não sentir o joanete. Falar que estava com frieira, e que o tratamento exige uso integral de meias? Podia até funcionar, se não fosse tão nojento. Pular da janela do décimo andar? Dar no pé e não dar por causa de um pé? (desculpem, não pude evitar o péssimo trocadilho).
Nada disso! Não podia perder tal oportunidade. Mas por via das dúvidas, se algo desse errado, garanti uma imagem dele tirada do meu celular da janela do banheiro. Vai que as amigas não acreditassem depois. Felizmente, a foto não precisou acompanhar uma história mentirosa. A noite foi maravilhosa, graças à genial solução de improvisar um strip- tease, e na hora de tirar os sapatos, dizer que eles faziam parte da fantasia. Acabou colando, pelo menos, temporariamente.
De manhã, acordei sem os sapatos. Sem ele também. Deixou somente um bilhete dizendo que tinha ido trabalhar, e que eu poderia ficar à vontade. Será que era verdade, ou teria fugido horrorizado quando descobriu que a “fantasia” da noite passada não passava de filme de terror?
Quem saberá, ele nunca mais me ligou.