terça-feira, 29 de julho de 2008

De pernas bem fechadas


Chegou o dia mais indesejável do ano: o de abrir as pernas, introduzir aquele instrumento gelado e grosso no lugar mais escuro do meu corpo. Que mulher pode querer passar por isso? No meu caso, a experiência estava marcada para as três da tarde, e o que é pior, com um desconhecido.
Mudei de convênio médico há poucos meses, e era a primeira vez que passaria com um tal ginecologista chamado Drº Mário. Uma amiga me disse que ele era um amor, super atencioso. E eu lá queria isso de um ginecologista. Na verdade, eu nem queria olhar para a cara de um. Gostaria que as consultas fossem via telefone, correio, internet, sei lá, telepatia. Imaginem que engraçado: “tecle 1 para corrimento de cor desconhecida. Dois para coceira de origem desconhecida. Três para exames de rotina. Quatro para assuntos mais íntimos, ou, aguarde para ser atendida.”
Depois de chegar ao consultório com uma hora de antecedência para conhecer o território e me preparar psicologicamente, estava lendo a sétima revista. A da vez tratava-se de cremes e pomadas para a parte íntima da mulher, aquelas edições que os médicos recebem e jogam na mesinha para os pacientes lerem e não entender “bulhufas”.
Vocês sabiam que existe até pomada para evitar o crescimento em excesso dos pêlos pubianos?
Melhor não acreditarem, pois na verdade não passa de fruto da imaginação de uma mulher desesperada, que foi se depilar pela manhã e ficou toda empipocada depois de arrancar tufos e tufos de um detestável presente genético. Acho que o médico que acaba de abrir a porta entenderá a minha alergia à cera quente.
Abaixei lentamente a revista para ver a cara do meu “carrasco” e fiz uma descoberta que me estarreceu mais do que qualquer existência de pomada para redução de pêlos pubianos (caso elas existissem, é claro). O Drº Mário era na verdade o Marinho, colega meu das quadras de tênis.
Ai meu Deus, e agora? Enquanto bebia água, pensava no que poderia ser pior do que aquela situação desagradável. O Mário, que da minha intimidade, até então, só conhecia o revelado pela minha saia pregueada, iria me ver agora quase como vim ao mundo, se não fosse pelo detalhe de que atualmente tenho peitos grandes e estrias no bumbum. Foi então que o mais óbvio me veio à cabeça: vou embora já.
Quando me virei pronta para jogar aquela consulta para os ares, dei de cara com o Marinho.
- Sabia que conhecia este nome quando li no prontuário.
- Marinho? Nossa, não sabia que o médico era você. Que coincidência, não? Como você está?
- Bem, e você? Aguarde só mais uns minutinhos que eu já te chamo.
Nunca mais apareceria no clube. E a Glória, mulher dele, o que ia pensar de mim? E quando fôssemos trocar bola? Só lembraria que ele já me viu sem calcinha e conhecia os segredos mais obscuros de ... vocês sabem onde.
“Andrea!”
Ai, sou eu. Resolvi abrir o jogo e manter minhas pernas bem fechadas naquela tarde. Expliquei que não me sentia bem com a situação e ele entendeu. Até me deu um cartão de uma colega dele.
Hummm, deixa eu ver... Alex Brandão? Não sei não, mas esse não é o nome do novo namorado da Valéria?

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Bobagens e um pouco de aspirina


Hoje acordei meio indisposta. Ontem foi uma noite daquelas. Muitos amigos ao redor, bebidas, música alta, conversas jogadas fora, e o melhor, pude finalmente mostrar que perdi aqueles quase cinco quilos depois de almoços e almoços de alface e água. E como não iam reparar. Fui sentar logo ao lado da Sandra, aquela gostosona bronzeada cujas coxas mais parecem com uma peça de mortadela. Chegaram a perguntar se eu estava doente. Pois amanhã mesmo me matriculo na musculação. E não posso deixar de marcar na minha agenda: voltar a comprar carboidratos, a começar pelo chocolate.
E a Bruna que fez a tal da progressiva. O cabelo dela era mais enrolado que o meu, e ontem sequer frisou com a garoa que pegamos na fila do bar. O meu, por outro lado, não teve elástico de cabelo que segurasse.
Falei para o Fábio que assim não dava mais, teria que me render aos encantos da química capilar. E ele, como sempre, me apoiou. Chegou a dizer que me levaria ao salão no dia seguinte. Peraí, logo ele que dizia amar meus cachinhos? Agora, sem hesitar, entra numa de apoio incondicional à namorada insatisfeita com o cabelo. No mínimo, deve ter se encantado com o novo visual da Bruna. Os homens são todos uns falsos e dissimulados.
Mas o “melhor” da noite foi quando o pessoal deu inicio a tradicional sessão de recordar as minhas gafes do colégio. Pronto, lá estava eu novamente virando piada pronta. Sempre achei que se eu ficasse sem rir de tudo aquilo, eles se tocariam e parariam com as piadas. Mas não. Passei então a rir junto com eles, acreditando que com a nova atitude as gozações perderiam um pouco a graça. Enganei-me novamente.
Descobri que a única saída era beber, mas beber muito nessa hora. Principalmente quando o assunto chegava à pitoresca história de quando sai do banheiro no dia da feira de ciências com a parte de baixo do vestido enfiado dentro da calcinha. Amo a vodka nessa hora. Seria perfeita, se não me desse tanta dor de cabeça no dia seguinte.
Ah, mas tinha um trunfo na manga. Poderia enfim me gabar pela promoção que tive no trabalho. Ergui meu copo de chopp e chamei o assunto em alto e bom som: “vamos falar de trabalho pessoal.” Fui interrompida pela metida da Sônia, que aproveitou a deixa para falar do seu mais novo cargo de diretora executiva de uma multinacional no Canadá. Aproveitei então para falar o que já deveria ter dito há muito tempo: “Gente, preciso ir ao banheiro.”
Da próxima vez, preciso inventar uma boa desculpa para não ir a esses encontros anuais.
“Alô? Oi Kátia. O encontro de ontem? Foi ótimo... o quê? Como faço para ser a única com um namorado nos dias de hoje? Ora, acho que sou uma mulher de sorte...
Ai, adoro rever os velhos amigos!

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Encontros e desencontros


Com seus cerca de 40 mil quilômetros de extensão, há quem diga que o nosso planeta é um lugar pequeno. E não poderia ser do contrário, se onde quer que a gente vá acaba tropeçando em um conhecido. Eles estão aos montes por aí, mesmo que você não seja alguém muito popular.
Outro dia mesmo a minha irmã estava no trânsito virando um saquinho de batatas fritas na boca - sabe quando ficam aqueles farelinhos deliciosos no final do pacote? – quando no auge da queda das migalhas por toda cara e cabelo, ela olha para o lado e se depara com o cara mais lindo do prédio onde trabalha (aquele para quem ela se arruma todos os dias e torce para encontrar no elevador) olhando para aquela cena lamentável, que justifica com total literalidade porque a gula é um pecado capital.
Isso somente comprova outra teoria dos acasos do dia-a-dia: os conhecidos não só nos perseguem e tem como lugar preferido aquele para o qual recorremos quando queremos ficar sozinhos, como também nos encontram nas horas mais inoportunas.
Comigo não é diferente. Encontro com pessoas conhecidas o tempo todo. A exceção no meu caso é que não me lembro de conhecê-las. Acho que sofro de uma espécie de mal de Alzheimer precoce. Não que algum médico tenha confirmado tal diagnóstico, mas é que a semelhança é tamanha que até me fez criar um tipo de “automedicação”. Um manual para driblar as freqüente gafes do esquecimento. Até outro dia, ele funcionava muito bem...
Enfim estava de férias da faculdade, depois de cursar o primeiro semestre de Administração. Tudo o que eu queria era praia, correr no calçadão e tomar água de coco, e com certeza, não encontrar ninguém acenando para mim como se me conhecesse. Pois lá estava ela. Uma garota - que não me era estranha, mas também não fazia idéia de onde tinha saído - sorria e chamava meu nome aos berros do outro lado da rua.
Seguindo a regra número 1 do meu manual, sorri para ela e fingi conhecê-la e estar com muitas saudades (afinal, se não me lembrava dela é porque fazia muito tempo que não a via). O segundo passo foi fazer elogios sobre o cabelo, forma física, roupa, ou qualquer outra coisa que não me fizesse entrar em assuntos mais pessoais (nessa etapa, tive de ser um pouco falsa, mas faz parte da metodologia). Depois comecei a falar de mim, da minha família e namorado. Sendo esse um campo conhecido por mim, não tinha como errar na conversa, e se ela realmente me conhecia, no mínimo, deveria querer saber como andava a minha vida.
E para fechar aquele bate-papo forçado, usei a pergunta chave do meu manual de instruções: Mas e ai, o que você tem feito da vida? Era perfeita. Eu estava sendo educada por me interessar por alguém que provavelmente há tempos não via, e depois poderia encerrar a conversa e continuar com minhas férias em paz (pelo menos até encontrar outra cara conhecida).
Entretanto, o que aconteceu foi que comecei a entender melhor porque as indústrias farmacêuticas fazem testes antes de colocar em circulação seus medicamentos. Meu manual continha falhas, e falhas fatais.
Quando perguntei aquilo, obtive a infeliz resposta:
-“Como assim o que ando fazendo? Eu estudo na sua sala da faculdade e nos vimos ainda esta semana.”
Em vez de eu começar a chorar e inventar qualquer história semelhante a: “desculpa, mas sabe aquele filme ‘Como se fosse a primeira vez’? Então, foi inspirado na minha vida”, ou, “tenho uma falta de um tipo de vitamina que me faz esquecer a fisionomia de pessoas com cabelos castanhos”, acabei não dizendo nada, virando as costas e saindo como se coisa alguma tivesse acontecido.
Não sei se ela nunca mais falou comigo pelo o esquecimento ou pelo descaso de não ter dado sequer uma explicação. A parte boa dessa história é que, pelo menos, o rosto de uma pessoa minha memória nunca mais se esquecerá.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Um amor fora dos padrões


Em qual lugar da face da Terra se usa calça social com regata de algodão? Segundo minhas coerentes suspeitas, em nenhum outro além daquele elevador. Era dia 7 de setembro, Independência do bom senso para se vestir. Ignorando a minha cara de desprezo, perguntou: “Será que era isso que meu professor quis dizer quando falou para irmos bem vestidos à aula de hoje? Tá um calor. Não pude colocar mangas. O que você acha?”
- Está ótimo (pelo sorriso, ele não sabe o que é a ironia em ação).
Começamos assim. Para mim, terminaria assim também. Mas ele foi além. No dia seguinte bateu na minha porta me chamando para sair. Era um prédio somente de repúblicas universitárias, e a dele ficava ao lado da minha. Olhei de cima a baixo. Hum... deixa eu ver: pernas tortas, chinelos Ridder, baixinho, camiseta do trote universitário daquele ano (é “bixo”) – e detalhe – por dentro da bermuda de sarja cintura alta. O que mais eu poderia querer? Sem responder à pergunta, que poderia ser cômica, não fosse meu mau humor naquela noite, bati a porta na cara dele.
Uma coisa não podia negar, ele era corajoso. Vir até minha casa, uma veterana do curso de medicina, um dia antes do inicio dos exames finais, era muita petulância. E não é para me gabar, mas dispensei muitos outros, infinitamente mais interessantes, por motivos bem mais banais.
Era óbvio que ele não se preocupava em levar um fora. Ficou muito mais quando a situação se repetiu dois dias depois. Desta vez, ele foi mais delicado e se mostrou preocupado quanto ao meu desempenho nas provas. Tive de baixar a guarda. Ele estendeu seu boletim e me fez rir (pra variar). Eram as piores notas que eu já tinha visto. Ele então me disse que só poderia superar a bronca que levou do pai (sim, ele ainda levava bronca do pai, já que tinha apenas 19 anos) se eu aceitasse sair com ele.
Como estava sem nenhuma desculpa para dar, e não podia negar que a abordagem tinha sido original e comovente, resolvi aceitar. Além do mais, há tempos não saia para me divertir, e com certeza, se tinha uma coisa que aquele cara sabia fazer, era eu morrer de rir.
Mesmo sendo uma lástima para se vestir, o caipira pentelho desarmava meu jeito reservado de ser, me tirava do pedestal no qual os homens sempre me colocaram, e até me transformava em piada quando eu tropeçava com o salto ou mostrava total desentendimento sobre música sertaneja – a trilha sonora da vida dele.
As saídas se tornaram cada vez mais constantes. Com ele passei a notar que minha arrogância nada mais era que o medo de me mostrar, deixar transparecer minhas fraquezas. Deixei de ser tão exigente comigo mesma. Até me peguei indo ao shopping de moletom e tirando nota 7 nos exames da faculdade. Podia chorar, acordar com bafo e descabelada, porque sabia que se estivesse linda e deslumbrante ele me veria com os mesmos olhos: os de alguém apaixonado.
Mas confesso, também tive minhas recaídas, principalmente quando resolvi levar ele para conhecer meus amigos. Deixei-o bem à vontade (não que ele não se sentisse assim de qualquer maneira). Logo se enturmou com todo mundo e eu fui para o quarto da Andréia, a anfitriã da festa, colocar a fofoca em dia. Quando voltei, a cena não podia ser pior e mais desastrosa. Ele, sem botinas e meias, com o pé em cima da mesa, mostrando um caso antigo de frieira para os meus futuros amigos médicos.
Fiquei dois dias sem falar com ele. O primeiro foi fácil; o segundo insuportável; no terceiro, dei de ombros para os comentários da família - do tipo: “querida, cada sapato tem seu par, e esse, definitivamente, não é o seu” - para as risadas das amigas, para a ascendência dos signos, para os casais de comercial de margarina, para os contos de fada e atores de Hollywood. Decidi assumir para mim e para o mundo que meu vizinho era o amor da minha vida.
O nome do amor?
Gervaziano.

Dar risada é o que importa

Não sei se me contaram, presenciei, inventei, incrementei...
Seja lá como for, dei boas risadas ao escrever essas situações, e espero que vocês, ao lerem, também se divirtam. Embora a maioria esteja na primeira pessoa do singular, JURO, não aconteceram comigo.
Só achei que daria maior proximidade e veracidade aos fatos.
Não faço o tipo feminista, ou algo assim, mas todos os contos e crônicas retratam alguma "presepada" enfrentada por uma mulher. Acho que é porque também sou uma, e além de me expressar solidária, fica mais fácil escrever compartilhando de um mesmo olhar.
Bom... chega de firulas, que muitas estão por vir...
Também aceito críticas e conselhos para novas histórias.

Abraços
Daniela Dahrouge