
Foi de repente que fui parada na rua por um cara ruborizado e com a voz tremula: “Você é Amélia?”
Caramba! Nunca senti meu nome tão forte e radiante. Era quase uma oração.
“Sim, sou eu mesma.”
Ele então demorou um pouco para assimilar, mas logo pegou minha mão e beijou agradecido. “Obrigado pela noite de ontem.”
Antes que alguém pense que cometi uma loucura depravada com um cara que deve ter metade da minha idade (ele era bem jovem, vejam bem), me deixem adiantar a conversa que travei com o abusado por quase meia hora.
Tentarei ser o mais breve e compreensível possível, para que vocês compartilhem o quanto antes o meu drama.
Virei uma santa, com direito a altar, estátuas e até oração própria. O problema é que nunca escutei prece alguma ou fui altruísta o suficiente para merecer tal cargo religioso. Pelo o contrário. Sempre fui um ser egoísta, egocêntrico e exibido. Mas talvez more aí a causa da minha santidade.
Ignorei por anos diversos garotos no colégio. Para o meu azar, um deles, ao invés de me odiar por ridicularizá-lo em público, passou a me idolatrar. Tirava fotos minhas sem que eu soubesse. Em uma delas, eu, bronzeada, me encaixava perfeitamente dentro de um minúsculo biquíni (tempos bons àqueles). Todas as garotas usavam um durante àquela excursão escolar ao parque aquático. Foi essa imagem a culpada de todo o meu drama. O tal do Júnior me imortalizou naquela tarde ensolarada, e me pendurou na parede de um quarto desocupado em sua casa - segundo o fulano que me parou na rua.
O altar estava montado. Logo chegariam os fiéis.
O que era para ser apenas um encontro de garotos com o rosto cheio de espinhas, acabou se tornando um culto ao inalcançável. Eles também queriam uma mulher como aquela. E passaram a pedir isso com fervor.
Não sei se a história é verídica, mas um deles, o mais feio, segundo o fulano, certo dia chegou dizendo que havia conseguido atrair a atenção de uma mulher na rua (o que, de cara, já era de se admirar). Segundo “a lenda”, do nada, um mulherão de tirar o fôlego o parou para pedir informação. Não satisfeita com a explicação “gaguejada” de como chegar ao motel mais perto, ela teria o pegado pela mão e insistido para que ele a acompanhasse.
Na hora, imaginei uma prostituta atraindo um idiota qualquer para uma cilada. Mas o tal fulano me garantiu que hoje os dois estavam casados e com dois filhos.
Após o ocorrido, a notícia se espalhou, e em poucas semanas, os fiéis se enfileiravam em frente ao altar improvisado pelo Júnior.
A mãe dele teria achado estranha a movimentação, e proibido o filho de receber os marmanjos do bairro em sua casa. A situação pedia providências imediatas. Foi quando o segundo fiel atendido pela santa sugeriu que cada um pagasse dízimo para alugar um santuário. Ninguém se opôs.
Além do dízimo, cada fiel teria de entregar uma camisinha a cada graça alcançada. Segundo o fulano, o estoque já passava dos dez mil preservativos, que representavam noites bem sucedidas, ou mesmo, a mentira de alguém sem coragem de admitir que nem uma santa é capaz de tirá-lo do mundo dos fracassados sexualmente.
O pote de oferendas se enchia ainda mais no Carnaval, época de maior “pegação”. Os fiéis chegavam a fazer procissão com a foto da santa.
Percebam que só consigo me referir à Santa Amélia na terceira pessoa do singular. Nem de longe minha vida naquele momento se assemelhava a de alguém capaz de ajudar milhares de homens a se dar bem por ai. Fazia cinco meses que estava encalhada. O único homem que tinha se aproximado de mim nos últimos tempos era o meu orientador na tese de doutorado - fato que parece ainda mais perturbador se considerarmos que ele ganhava para fazer isso e tinha 70 anos de idade.
Não podia negar que me sentia lisonjeada por ser uma musa. Precisava conferir tudo com meus próprios olhos.
Perguntei para o fulano onde ficava o santuário. Ele me passou o endereço e até pediu para que eu o avisasse sobre o dia e a hora de minha visita, para preparar os fieis para a aparição. Preferir ir anônima. Coloquei casaco, peruca, óculos escuros - tudo para não ser reconhecida.
Foi incrível. Ao entrar no santuário, senti uma força e um calor inexplicável. Velas queimavam. Fotos de mulheres peitudas “pintavam” a parede. Eram as graças alcançadas. E lá estava ele: o pote repleto de camisinhas, de todas as cores, marcas e tamanhos.
Tudo funcionava independente da minha real existência ou presença naquele recinto.
Sentei e fiquei apreciando as minhas curvas da adolescência. Nem me lembrava mais de como eram, e não foi difícil saber o porquê de tantos homens depositarem tamanha fé na Santa Amélia. Poderia até ganhar algum dinheiro com um processo de uso indevido e não autorizado da minha imagem, não fosse o fato de que o juiz não acreditaria que era eu na foto.
Percebi um olhar curioso ao meu lado. No mínimo, alguém achando estranho ver uma mulher por ali. Foi quando uma voz sussurrou: “Enfim você atendeu minhas preces e apareceu para mim.”
Reconheci aquele rosto assim que olhei. Era o Júnior, só que numa versão sem espinhas, musculosa, com lentes de contatos, e bem mais autoconfiante. Era a vingança dos nerds acontecendo bem diante dos meus olhos. Ele deixava muitos atletas do tempo da escola (que hoje estavam barrigudos e desempregados) no “chinelo”.
Confesso que não fui nem um pouco difícil. Pelo contrário. Resolvi ser pela primeira vez uma santa preocupada com os anseios de seus fiéis, e atendi aos pedidos do Júnior ali mesmo. Nunca imaginei que pudesse ser tão gratificante. Será que foi porque atendi justo o criador do santuário? Seja como for, repeti a dose várias vezes, até que decidimos morar juntos.
O Júnior então anunciou que iria passar a liderança do santuário para o fulano, que depois descobri chamar André, mas não antes de o fulano prometer que a nossa história ficaria em segredo. Afinal, a áurea que envolvia Santa Amélia deveria continuar intocada. Quem sabe se um dia tivermos um filho, e ele puxe ao pai na adolescência? Ele vai precisar de uma foto da santinha (que eu já guardei, só por garantia) para ter sorte com as mulheres.
Só espero que não note nenhuma semelhança.
Caramba! Nunca senti meu nome tão forte e radiante. Era quase uma oração.
“Sim, sou eu mesma.”
Ele então demorou um pouco para assimilar, mas logo pegou minha mão e beijou agradecido. “Obrigado pela noite de ontem.”
Antes que alguém pense que cometi uma loucura depravada com um cara que deve ter metade da minha idade (ele era bem jovem, vejam bem), me deixem adiantar a conversa que travei com o abusado por quase meia hora.
Tentarei ser o mais breve e compreensível possível, para que vocês compartilhem o quanto antes o meu drama.
Virei uma santa, com direito a altar, estátuas e até oração própria. O problema é que nunca escutei prece alguma ou fui altruísta o suficiente para merecer tal cargo religioso. Pelo o contrário. Sempre fui um ser egoísta, egocêntrico e exibido. Mas talvez more aí a causa da minha santidade.
Ignorei por anos diversos garotos no colégio. Para o meu azar, um deles, ao invés de me odiar por ridicularizá-lo em público, passou a me idolatrar. Tirava fotos minhas sem que eu soubesse. Em uma delas, eu, bronzeada, me encaixava perfeitamente dentro de um minúsculo biquíni (tempos bons àqueles). Todas as garotas usavam um durante àquela excursão escolar ao parque aquático. Foi essa imagem a culpada de todo o meu drama. O tal do Júnior me imortalizou naquela tarde ensolarada, e me pendurou na parede de um quarto desocupado em sua casa - segundo o fulano que me parou na rua.
O altar estava montado. Logo chegariam os fiéis.
O que era para ser apenas um encontro de garotos com o rosto cheio de espinhas, acabou se tornando um culto ao inalcançável. Eles também queriam uma mulher como aquela. E passaram a pedir isso com fervor.
Não sei se a história é verídica, mas um deles, o mais feio, segundo o fulano, certo dia chegou dizendo que havia conseguido atrair a atenção de uma mulher na rua (o que, de cara, já era de se admirar). Segundo “a lenda”, do nada, um mulherão de tirar o fôlego o parou para pedir informação. Não satisfeita com a explicação “gaguejada” de como chegar ao motel mais perto, ela teria o pegado pela mão e insistido para que ele a acompanhasse.
Na hora, imaginei uma prostituta atraindo um idiota qualquer para uma cilada. Mas o tal fulano me garantiu que hoje os dois estavam casados e com dois filhos.
Após o ocorrido, a notícia se espalhou, e em poucas semanas, os fiéis se enfileiravam em frente ao altar improvisado pelo Júnior.
A mãe dele teria achado estranha a movimentação, e proibido o filho de receber os marmanjos do bairro em sua casa. A situação pedia providências imediatas. Foi quando o segundo fiel atendido pela santa sugeriu que cada um pagasse dízimo para alugar um santuário. Ninguém se opôs.
Além do dízimo, cada fiel teria de entregar uma camisinha a cada graça alcançada. Segundo o fulano, o estoque já passava dos dez mil preservativos, que representavam noites bem sucedidas, ou mesmo, a mentira de alguém sem coragem de admitir que nem uma santa é capaz de tirá-lo do mundo dos fracassados sexualmente.
O pote de oferendas se enchia ainda mais no Carnaval, época de maior “pegação”. Os fiéis chegavam a fazer procissão com a foto da santa.
Percebam que só consigo me referir à Santa Amélia na terceira pessoa do singular. Nem de longe minha vida naquele momento se assemelhava a de alguém capaz de ajudar milhares de homens a se dar bem por ai. Fazia cinco meses que estava encalhada. O único homem que tinha se aproximado de mim nos últimos tempos era o meu orientador na tese de doutorado - fato que parece ainda mais perturbador se considerarmos que ele ganhava para fazer isso e tinha 70 anos de idade.
Não podia negar que me sentia lisonjeada por ser uma musa. Precisava conferir tudo com meus próprios olhos.
Perguntei para o fulano onde ficava o santuário. Ele me passou o endereço e até pediu para que eu o avisasse sobre o dia e a hora de minha visita, para preparar os fieis para a aparição. Preferir ir anônima. Coloquei casaco, peruca, óculos escuros - tudo para não ser reconhecida.
Foi incrível. Ao entrar no santuário, senti uma força e um calor inexplicável. Velas queimavam. Fotos de mulheres peitudas “pintavam” a parede. Eram as graças alcançadas. E lá estava ele: o pote repleto de camisinhas, de todas as cores, marcas e tamanhos.
Tudo funcionava independente da minha real existência ou presença naquele recinto.
Sentei e fiquei apreciando as minhas curvas da adolescência. Nem me lembrava mais de como eram, e não foi difícil saber o porquê de tantos homens depositarem tamanha fé na Santa Amélia. Poderia até ganhar algum dinheiro com um processo de uso indevido e não autorizado da minha imagem, não fosse o fato de que o juiz não acreditaria que era eu na foto.
Percebi um olhar curioso ao meu lado. No mínimo, alguém achando estranho ver uma mulher por ali. Foi quando uma voz sussurrou: “Enfim você atendeu minhas preces e apareceu para mim.”
Reconheci aquele rosto assim que olhei. Era o Júnior, só que numa versão sem espinhas, musculosa, com lentes de contatos, e bem mais autoconfiante. Era a vingança dos nerds acontecendo bem diante dos meus olhos. Ele deixava muitos atletas do tempo da escola (que hoje estavam barrigudos e desempregados) no “chinelo”.
Confesso que não fui nem um pouco difícil. Pelo contrário. Resolvi ser pela primeira vez uma santa preocupada com os anseios de seus fiéis, e atendi aos pedidos do Júnior ali mesmo. Nunca imaginei que pudesse ser tão gratificante. Será que foi porque atendi justo o criador do santuário? Seja como for, repeti a dose várias vezes, até que decidimos morar juntos.
O Júnior então anunciou que iria passar a liderança do santuário para o fulano, que depois descobri chamar André, mas não antes de o fulano prometer que a nossa história ficaria em segredo. Afinal, a áurea que envolvia Santa Amélia deveria continuar intocada. Quem sabe se um dia tivermos um filho, e ele puxe ao pai na adolescência? Ele vai precisar de uma foto da santinha (que eu já guardei, só por garantia) para ter sorte com as mulheres.
Só espero que não note nenhuma semelhança.

Um comentário:
bem que podia existir uma santa dessa de verdade...
muito engraçado...
abraços
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