
Em qual lugar da face da Terra se usa calça social com regata de algodão? Segundo minhas coerentes suspeitas, em nenhum outro além daquele elevador. Era dia 7 de setembro, Independência do bom senso para se vestir. Ignorando a minha cara de desprezo, perguntou: “Será que era isso que meu professor quis dizer quando falou para irmos bem vestidos à aula de hoje? Tá um calor. Não pude colocar mangas. O que você acha?”
- Está ótimo (pelo sorriso, ele não sabe o que é a ironia em ação).
Começamos assim. Para mim, terminaria assim também. Mas ele foi além. No dia seguinte bateu na minha porta me chamando para sair. Era um prédio somente de repúblicas universitárias, e a dele ficava ao lado da minha. Olhei de cima a baixo. Hum... deixa eu ver: pernas tortas, chinelos Ridder, baixinho, camiseta do trote universitário daquele ano (é “bixo”) – e detalhe – por dentro da bermuda de sarja cintura alta. O que mais eu poderia querer? Sem responder à pergunta, que poderia ser cômica, não fosse meu mau humor naquela noite, bati a porta na cara dele.
Uma coisa não podia negar, ele era corajoso. Vir até minha casa, uma veterana do curso de medicina, um dia antes do inicio dos exames finais, era muita petulância. E não é para me gabar, mas dispensei muitos outros, infinitamente mais interessantes, por motivos bem mais banais.
Era óbvio que ele não se preocupava em levar um fora. Ficou muito mais quando a situação se repetiu dois dias depois. Desta vez, ele foi mais delicado e se mostrou preocupado quanto ao meu desempenho nas provas. Tive de baixar a guarda. Ele estendeu seu boletim e me fez rir (pra variar). Eram as piores notas que eu já tinha visto. Ele então me disse que só poderia superar a bronca que levou do pai (sim, ele ainda levava bronca do pai, já que tinha apenas 19 anos) se eu aceitasse sair com ele.
Como estava sem nenhuma desculpa para dar, e não podia negar que a abordagem tinha sido original e comovente, resolvi aceitar. Além do mais, há tempos não saia para me divertir, e com certeza, se tinha uma coisa que aquele cara sabia fazer, era eu morrer de rir.
Mesmo sendo uma lástima para se vestir, o caipira pentelho desarmava meu jeito reservado de ser, me tirava do pedestal no qual os homens sempre me colocaram, e até me transformava em piada quando eu tropeçava com o salto ou mostrava total desentendimento sobre música sertaneja – a trilha sonora da vida dele.
As saídas se tornaram cada vez mais constantes. Com ele passei a notar que minha arrogância nada mais era que o medo de me mostrar, deixar transparecer minhas fraquezas. Deixei de ser tão exigente comigo mesma. Até me peguei indo ao shopping de moletom e tirando nota 7 nos exames da faculdade. Podia chorar, acordar com bafo e descabelada, porque sabia que se estivesse linda e deslumbrante ele me veria com os mesmos olhos: os de alguém apaixonado.
Mas confesso, também tive minhas recaídas, principalmente quando resolvi levar ele para conhecer meus amigos. Deixei-o bem à vontade (não que ele não se sentisse assim de qualquer maneira). Logo se enturmou com todo mundo e eu fui para o quarto da Andréia, a anfitriã da festa, colocar a fofoca em dia. Quando voltei, a cena não podia ser pior e mais desastrosa. Ele, sem botinas e meias, com o pé em cima da mesa, mostrando um caso antigo de frieira para os meus futuros amigos médicos.
Fiquei dois dias sem falar com ele. O primeiro foi fácil; o segundo insuportável; no terceiro, dei de ombros para os comentários da família - do tipo: “querida, cada sapato tem seu par, e esse, definitivamente, não é o seu” - para as risadas das amigas, para a ascendência dos signos, para os casais de comercial de margarina, para os contos de fada e atores de Hollywood. Decidi assumir para mim e para o mundo que meu vizinho era o amor da minha vida.
O nome do amor?
Gervaziano.
- Está ótimo (pelo sorriso, ele não sabe o que é a ironia em ação).
Começamos assim. Para mim, terminaria assim também. Mas ele foi além. No dia seguinte bateu na minha porta me chamando para sair. Era um prédio somente de repúblicas universitárias, e a dele ficava ao lado da minha. Olhei de cima a baixo. Hum... deixa eu ver: pernas tortas, chinelos Ridder, baixinho, camiseta do trote universitário daquele ano (é “bixo”) – e detalhe – por dentro da bermuda de sarja cintura alta. O que mais eu poderia querer? Sem responder à pergunta, que poderia ser cômica, não fosse meu mau humor naquela noite, bati a porta na cara dele.
Uma coisa não podia negar, ele era corajoso. Vir até minha casa, uma veterana do curso de medicina, um dia antes do inicio dos exames finais, era muita petulância. E não é para me gabar, mas dispensei muitos outros, infinitamente mais interessantes, por motivos bem mais banais.
Era óbvio que ele não se preocupava em levar um fora. Ficou muito mais quando a situação se repetiu dois dias depois. Desta vez, ele foi mais delicado e se mostrou preocupado quanto ao meu desempenho nas provas. Tive de baixar a guarda. Ele estendeu seu boletim e me fez rir (pra variar). Eram as piores notas que eu já tinha visto. Ele então me disse que só poderia superar a bronca que levou do pai (sim, ele ainda levava bronca do pai, já que tinha apenas 19 anos) se eu aceitasse sair com ele.
Como estava sem nenhuma desculpa para dar, e não podia negar que a abordagem tinha sido original e comovente, resolvi aceitar. Além do mais, há tempos não saia para me divertir, e com certeza, se tinha uma coisa que aquele cara sabia fazer, era eu morrer de rir.
Mesmo sendo uma lástima para se vestir, o caipira pentelho desarmava meu jeito reservado de ser, me tirava do pedestal no qual os homens sempre me colocaram, e até me transformava em piada quando eu tropeçava com o salto ou mostrava total desentendimento sobre música sertaneja – a trilha sonora da vida dele.
As saídas se tornaram cada vez mais constantes. Com ele passei a notar que minha arrogância nada mais era que o medo de me mostrar, deixar transparecer minhas fraquezas. Deixei de ser tão exigente comigo mesma. Até me peguei indo ao shopping de moletom e tirando nota 7 nos exames da faculdade. Podia chorar, acordar com bafo e descabelada, porque sabia que se estivesse linda e deslumbrante ele me veria com os mesmos olhos: os de alguém apaixonado.
Mas confesso, também tive minhas recaídas, principalmente quando resolvi levar ele para conhecer meus amigos. Deixei-o bem à vontade (não que ele não se sentisse assim de qualquer maneira). Logo se enturmou com todo mundo e eu fui para o quarto da Andréia, a anfitriã da festa, colocar a fofoca em dia. Quando voltei, a cena não podia ser pior e mais desastrosa. Ele, sem botinas e meias, com o pé em cima da mesa, mostrando um caso antigo de frieira para os meus futuros amigos médicos.
Fiquei dois dias sem falar com ele. O primeiro foi fácil; o segundo insuportável; no terceiro, dei de ombros para os comentários da família - do tipo: “querida, cada sapato tem seu par, e esse, definitivamente, não é o seu” - para as risadas das amigas, para a ascendência dos signos, para os casais de comercial de margarina, para os contos de fada e atores de Hollywood. Decidi assumir para mim e para o mundo que meu vizinho era o amor da minha vida.
O nome do amor?
Gervaziano.

5 comentários:
Adorei!!!
Simples como sua crônica e tão cheia de verdade e amor.
Te amo, né!?
bjos
Adorei Dani
Dei boas ridas ...
Beijos e sucesso
Malu
Dan,
Sensacional! Me conquistou, agora sou leitora assídua!
Beijos
Hum... Muito bem contada! Parabéns minha escritora!
Bjos
Q paia vc,
soh usa essa foto....
tsc tsc tsc
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